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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Ilha do silêncio




Silêncio é ilha deserta
Tem gente que procura o silêncio,
geralmente para explorar ou deixar os seus lixos.
Mas depois de algum tempo vão embora, sempre vão.

Do outro lado do mar agitado há o continente,
há diversidade de dons e talentos,
há barulhos e luzes,
há multidões em cada canto.

Mas aqui no silêncio também tem barulho,
luz e criaturas mais simples, poucos,
só os que cabem no silêncio.
Tem trabalho, mas não o tempo todo.

Nem tudo na ilha é silêncio,
aqui também tem música, tem riso e tem choro.
E também tem oração.
Deus habita no silêncio.

domingo, 20 de maio de 2018

Asperger




A síndrome de asperger, faz parte do espectro autista, mas é um grau tão sutil, que pode passar despercebido até a idade adulta. O Aspie passa a vida inteira se treinando para melhorar em suas dificuldades de interação social, tentando se encaixar num mundo que parece muito hostil e enfrentando crises existenciais, desgastes de energia e muitas limitações, ao passo que usa as suas poucas habilidades para continuar sendo, num mundo que enxerga completamente barulhento, fútil e raso.

Eu não tive um desenvolvimento normal, mas por causa das intercorrências que tive na infância, meus atrasos passaram despercebidos. Minha mãe contava, que fui um bebê de carrinho. Ela não me colocava no chão e eu não cheguei a engatinhar. Disse que um dia alguém chegou e me viu sentada no carrinho, me tirou e colocou no chão onde já segurei nos móveis e andei surpreendendo a todos. 

Não tenho muitos detalhes do meu desenvolvimento, mas pelo que sei, quando tinha um ano e meio adoeci gravemente e parei de andar. O conjunto de doenças que me acometeram por pouco não me ceifaram a vida, como sarei já quase com 3 anos, tenho alguns flashs de lembranças, tipo cheiro de remédios, injeções e uma diarreia que demorou muito a desaparecer. Me lembro que comemorei a primeira vez que fiz um cocô normal. Então, toda a minha personalidade difícil foi atribuída ao período que estive doente e depois ao aprendizado tardio. Ninguém percebeu que aquele choro incessante por qualquer motivo, o fato de só aceitar minha mãe e o pavor de me alimentar, era algo além do que uma criança reaprendendo a viver. Era a síndrome camuflada, ainda tenho algumas lembranças do quanto era horrível tudo ao redor.

O fato é que cresci uma menina muito estranha. Chorava demais, por tudo e qualquer motivo. Tinha uma tristeza constante me corroendo, só ia no colo da minha mãe e gritava se outra pessoa cuidava de mim. Me recusava a comer, era um grande sacrifício me alimentar e sair da rotina era muito desgastante pra mim.

Minha irmã mais velha, sempre muito extrovertida, brincava com as crianças da vizinhança, mas eu não conseguia. Mesmo que ficasse ao lado assistindo as crianças brincarem, chegava um momento que eu entrava para casa e deitava na passadeira que tinha na porta, exausta e deprimida. Hoje sei que apenas o barulho era suficiente para me desgastar e também a frustração por não saber brincar e conversar com as outras crianças.

Minha vida escolar era um verdadeiro tormento porque nunca consegui interagir com as outras crianças e era um desconforto muito grande quando as professoras falavam comigo. Me lembro o quanto me sentia mal enquanto faziam a chamada e eu sabia que teria que responder "presente". Muitas vezes a aula não prendia minha atenção e eu recortava papel e fazia bonequinhos enquanto os coleguinhas faziam exercícios.

Em casa eu me sentia um pouco mais à vontade, desde que não chegasse ninguém de fora, então eu ficava pelo quarto no andar de cima, ou dentro do guarda-roupas, ou embaixo da cama. Não queria ser achada, era muito desgastante interagir.

Cresci ouvindo de meus pais que eu era uma menina preguiçosa, pirracenta e teimosa demais. Com meus irmãos também era agressiva em alguns momentos e implicante em outros. Vez ou outra conseguíamos brincar, mas na maioria das vezes eu era apenas expectadora das brincadeiras. Cresci com estigmas de pior filha, de criança e adolescente difícil, fui a que mais apanhei em casa.

Urinava na cama até bem crescida, tinha mania de mexer no lixo das pessoas procurando coisas pra brincar, constantemente ficava depressiva e sempre me isolava. Às vezes até desejava brincar com as outras crianças, mas não sabia como. Em vários momentos da vida desejei estar morta.

Na escola nunca participava de nada, não aprendi a jogar, nunca entendi regra nenhuma, sempre fiquei pelos cantos. No início eu ficava só com a professora, depois, aos poucos elegia algum coleguinha excluído para trocar umas palavrinhas mas não me aprofundava nas amizades. A lembrança mais viva que tenho dos meus primeiros momentos na escola, foi um constrangimento que sofri por molhar a roupa. A bermudinha era apertada demais e eu não conseguia tirar antes do xixi começar a sair. Chorei e gritei muito porque me expuseram na classe. 

Era a mais apagada da escola. Quando estava com 9 anos, cheguei a fraturar o braço no recreio e nem chorei pra não chamar atenção. Fiquei sofrendo em silêncio e só contei o que aconteceu na saída quando minha mãe foi me buscar.

Sempre tive uma amiguinha de cada vez, mas mesmo com elas, nunca fui inteira. Aos 13 anos ainda brincava de boneca no chão, com crianças de 6 anos. Não conseguia interagir muito com crianças da minha idade. Morava num condomínio onde os adolescentes da minha idade brincavam de sinuca, vôlei e namoravam. E eu brincando com as criancinhas.

Na adolescência era aparentemente a tímida, só conseguia me relacionar com outros jovens, quando usava minha irmã e vizinha como suportes nos diálogos. Longe delas eu não conseguia sustentar um diálogo. Então entrei na fase de me apaixonar e até nisso meu comportamento era muito estranho pois simplesmente ficava fissurada, obcecada e perseguia os meninos com o olhar até incomodá-los e causar medo. Nunca fui bem sucedida nessa área, só sabia olhar mesmo. 

Tive pouquíssimos namorados durante a vida. Tinha vontade de me relacionar, mas não sabia muito bem com agir e acabava sendo abandonada. Apesar de ter me tornado mãe, nunca dei conta de ser quem ele precisava que eu fosse. Sempre dependi das pessoas, sempre permiti que decidissem por mim. Coincidiu com a fase que precisei mudar de Estado e as mudanças sempre me desgastaram muito. Tive muita depressão nessa época, ansiedade, fiquei agressiva e muito infeliz. Não tinha a compreensão da família e demorei muito pra me adaptar à nova realidade.

Na vida adulta, apesar da dificuldade de interação social, fiz algumas amizades que consigo manter. Minha dificuldade maior é não conseguir me expressar falando, da mesma forma que me expresso escrevendo. Num texto, consigo exprimir toda a minha ideia, mas falando, não consigo manter um diálogo linear, com princípio, meio e fim. É como se eu quisesse por logo um final na conversa e voltar pro meu silêncio. Se precisar falar em público, a ansiedade me consome, o coração dispara, a boca seca, a voz treme e embarga, não consigo encarar os ouvintes, realmente tenho pânico de perceber que muitas pessoas estão me olhando e me ouvindo.

Por falar em rostos, um fato acontece comigo: moro na mesma rua há quase vinte anos e não conheço o rosto dos meus vizinhos, simplesmente porque ando olhando para o chão. Não consigo encarar as pessoas, a menos que sejam próximas. Sou vista como uma pessoa sistemática e não dou espaço pra ninguém se aproximar.

Entre a família, apesar de ficar a maioria do tempo sozinha na minha casa, consigo conversar, rir, brincar, e ser um pouco mais "normal". Mas entre os estranhos, andei me decepcionando muito porque acredito demais nas pessoas, chego a ser até ingênua e quase sempre me deparo com traições, falsidades e explorações que só me dou conta depois que acontecem, porque acredito em tudo que me falam.

Eu acabo percebendo os abusos, as trairagens, as falsidades, mas demoro muito tempo para desassociar o que falam de si e o que realmente são. Depois que percebo que me enganaram de novo, me isolo por mais um longo período, até ser iludida novamente por outra pessoa.

Nunca consegui ter uma carreira e os empregos que tive arranjaram pra mim. Sempre trabalhei e muito, mas nos últimos anos escolhi ser diarista, pra poder fazer as coisas no meu tempo, caladinha e nos dias que escolho trabalhar. Interajo com as pessoas pra quem trabalho, mas consigo administrar isso melhor porque na maioria do tempo estou ocupada. De certa forma foi uma boa saída, pois consegui me manter sem me desgastar tanto mentalmente, apesar de danos físicos que acabei provocando com tantos esforços. Apesar de saber que tenho potencial pra realizar coisas maiores, me acomodei com o que facilita minha vida no sentido de não ter que interagir.

Atualmente não estou trabalhando e nem frequentando grupo nenhum onde eu tenha que me forçar a interagir. Apesar de ser mais fácil na vida adulta, pois consigo conversar, ainda sou tímida e ansiosa com pessoas estranhas. Fico dias sem sair de casa e evito todos os tipos de saída onde sei que vou encontrar muita gente.

Tenho duas ou três amigas que encontro periodicamente e se tenho que sair para encontrar mais pessoas, vou mentalizando isso para me preparar e acostumar com a ideia. Acho que tudo na minha vida foi na base do treinamento, já que não sou espontânea nas minhas relações. Das pessoas que convivi, poucas conseguirão me descrever, sou um tanto misteriosa até pra quem caminhou muitos anos comigo.

A sensação que tenho é que não sou como as outras pessoas e não pertenço à este mundo. É uma luta diária pra me manter focada no que preciso fazer, quase sempre estou procrastinando porque simplesmente quero permanecer na minha bolha. Sei que tenho que produzir, manter as coisas em ordem, mas cada dia que passa me desligo mais do que acontece ao redor. Não vejo muito sentido nas coisas, não domino assunto nenhum. Só me interesso pelo Evangelho, mais nada. 

Os neurotípicos sabem conversar sobre os esportes, a política, músicas, artistas, atualidades, vídeo games, novelas, brincadeiras em geral, times, mímicas, filmes, artistas que atuaram neste ou naquele filme... uma infinidades de assuntos. Em mim só cabe o Evangelho. É a única coisa que domino e sou coerente. Não tenho muita expressão corporal, caminho com uma marcha estranha, não tenho coordenação motora fina, minha letra sempre foi um garrancho, não sou muito detalhista e só realizo o que faz sentido pra mim. Gosto de cozinhar, acho que nisso sou boa, mas nada sofisticado.

Me vejo como uma pessoa intensa e muito sentimental. Sou capaz de chorar de novo, com fatos que aconteceram na minha infância e sou extremamente empática. Chego ao ponto de me prejudicar para priorizar o outro e não posso ver ninguém chorar que também me emociono. Dizem que alguns autistas não sentem empatia, mas eu ao contrário, sou hiper empática. Todas as dores da minha vida parecem compactadas aqui dentro de mim e volta e meia uma delas sobressaem.

Eu sei que o autismo é um conjunto de fatores e eu tenho certeza que sou asperger. Não há um exame que diga se sou ou não, apenas tenho todos os traços e sei que sou. Um profissional investigaria com base num questionário e diria o que já sei, por isso nem quero diagnóstico. Já não faz diferença, já cheguei até aqui e fui me adaptando. Aliás, já participei de pesquisas e o resultado é 146 em 200 e a observação é que sou muito provavelmente asperger. Não tenho condições de pagar profissionais para me acompanhar.

Aprendi a lidar com minhas diferenças e me aceitei assim. Tenho um jeito todo meu de viver e agir, mas me adaptei bem. Tenho poucas amizades que considero suficientes porque consigo me programar para mantê-las. Cumpro minhas obrigações e deveres, mas não me cobro além do que é confortável pra mim. De certa forma aprendi a ser feliz sendo quem sou. Tenho arestas e brechas como todo mundo que está aqui para ser aperfeiçoado, mas considero que estou indo bem.

Mesmo sendo num grau muito leve e não tendo prejuízos cognitivos, conviver com o autismo é um desafio diário, que até aqui, venci.

sábado, 19 de maio de 2018

Sobre o Batismo

Há um equívoco no entendimento da maioria, que se escandaliza quando alguém é inserido no rol de membros de outra denominação e se rebatiza ou aproveita uma viagem à Israel e se rebatiza no Rio Jordão, para refazer os passos de Jesus. Muitos criticam tal atitude, baseados no versículo onde se diz que há "só um batismo".

"Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos." Efésios 4: 4-6

Entendo que o versículo não se refere à quantidade de vezes que é permitido ao cristão se batizar. Este "um só" se refere à confissão da fé cristã, em contraste à confissão de fé em qualquer outro tipo de convicção religiosa. É um assumir Jesus Cristo publicamente. Um só motivo, uma só certeza.

Me baseio no exemplo que encontramos em Atos 19, onde o próprio Apóstolo Paulo incentiva o rebatismo de alguns discípulos de Jesus.

Paulo encontra um grupo de homens que já eram cristãos e já haviam sido batizados por arrependimento por João Batista, mas não sabiam da existência do Espírito Santo. Ao ouvirem de Paulo mais detalhadamente sobre O Evangelho, foram batizados novamente e em seguida foram batizados no Espírito Santo também.

Por que sentiram a necessidade de um rebatismo? Porque a compreensão da fé estava incompleta e ao ficarem cientes de tudo, o rito do batismo serviu como uma assinatura de concordância.

Qualquer um que em qualquer tempo, entenda que foi batizado sem entender a sã doutrina, pode desejar batizar-se novamente e isso não tem nada de herético. O batismo em si é apenas um rito, o que importa de fato é integrar o Corpo de Cristo na Terra, compreender a fé que se professa e se comprometer com o Reino de Deus.


sábado, 21 de abril de 2018

Congregar

Você não tem que ser um anzol, fisgando os outros pra trazer pra onde você está. Basta ser luz e sal, fazer diferença pra que Cristo seja refletido através de você.

Cumprir o propósito pro que foi criado, ser carta viva, negar a si mesmo, ser padrão, são coisas que uma consciência cauterizada nem pensa em ser, porque são justos aos próprios olhos.

Congregar, não é participar de um evento religioso. É mais uma questão de alma do que de corpo. É o dom de chorar com quem chora e se alegrar com quem se alegra, é verdadeiramente estar juntos.

Não se iluda, você pode estar arrolado num rol de membros institucionais por 40 anos e ainda assim não saber nada sobre o irmão que está ao seu lado, ou seja, nunca congregou com ele.

O erro principal é mistificar uma construção de tijolos, onde as pessoas acham que tudo acontece. Se cada um tivesse consciência de ser a Igreja, se reuniriam, se amariam, se ajuntariam no chão da vida e assim seriam culto constante à Deus. Mas enfim... é muito erro pra pouca vontade de mudar.

Entenda, não é errado estabelecer um endereço propício para por em prática os estudos bíblicos, com cânticos e comunhão. Errado é cultuar o lugar, os ritos e o deus encaixotado, enquanto da porta pra fora, não se envolve com ninguém. 

Se Jesus disse que estava nos necessitados, encarcerados, doentes, está também nos nossos familiares, amigos e vizinhos. É no dia a dia, o tempo todo e em qualquer lugar que se cultua a Deus na prática de amar, ao passo que a postura religiosa só massageia o ego e exclui quem não toma a mesma forma do grupo religioso.

Culto racional, é decidir conscientemente fazer conforme se aprendeu com Cristo, que diga-se de passagem, ia congregando com multidões pela estrada, montes, vilarejos e praias. E só ia ao templo para confrontar a tradição dos religiosos.

Nosso culto é o amor e o ambiente é qualquer um onde estejam reunidos os filhos de Deus. Seja simples e tudo será simples.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sobre o laço que torna a te prender

Uma vez libertos para que fôssemos verdadeiramente livres, nos resta viver a liberdade de uma consciência que busca mortificar o "si mesmo" e caminha em direção ao outro, como uma imensa família onde um só é Senhor. Está consumada de uma vez por todas pelos méritos de UM e não há mais culto que nos justifique diante de Deus, pois o único culto aceito por Ele, foi o Sangue puro do Cordeiro Santo. E somente estando Nele, temos mediação.

Então vem os líderes religiosos, criam uma nova tradição, novos estatutos, novas regras e cabrestos, sempre com a maquiagem do misticismo e perpetua no meio do grupo, o que a Bíblia jamais instituiu. Todos os princípios e valores que o Mestre ensinou à quem o seguiu, se tornou de novo uma religião ditadora e manipuladora de mentes que terceirizam as rédeas das próprias vidas. 

É um conjunto de várias práticas, mas vou dar apenas três exemplos: Ceia, dízimo e evangelismo. Comparando o que é e o que virou na vida de muitos encautos, que pensam estar fazendo a vontade de Deus.

Sobre a Ceia: Quando Jesus disse "este é meu Corpo e Sangue, façam isto, comam e bebam em memória de mim" Não estava propondo um micro lanche coletivo com uma migalha de pão e um cálice de suco, em memória do escárnio que sofreu na Cruz. Estava dizendo à Igreja, que assim como deu o Corpo para padecer em favor de muitos pecadores, devemos também oferecer nossa vida em favor dos que caminham conosco e se preciso for, dar até nossa última gota de sangue por causa de Cristo, em memória do que Ele mesmo fez por nós. Estava preparando a Igreja para as perseguições, afrontas e perigos que sofreriam nos próximos dias e até que Ele venha. Estava ensinando o discípulo à priorizar seu irmão, ao compromisso de estar com ele, protegendo, suprindo, se unindo por uma causa, a de sermos um. Então a igreja evangélica se fixa no ritual, mistifica o momento da Ceia, enquanto fortalece a postura do hipócrita, que momentos antes confessa seus pecados acumulados e sai dalí como se nada tivesse feito, porque não discerne o Corpo que é a própria Igreja e comeu e bebeu maldição, porque nada entendeu sobre o vínculo da perfeição que é o Amor.

Sobre o dízimo: Quando Deus instituiu o dízimo como providência de igualdade social entre os que tinham terra e os que viviam para o serviço, os carentes e os estrangeiros, estava apenas garantindo que todos teriam mantimento. Aí Cristo usando de grande sabedoria, mostra aos seguidores da Lei, que apesar do ritual de colher e separar os grãos, eles continuavam malditos, por negligenciar no amor, justiça e misericórdia, porque faziam por hipocrisia e não para saciar o próximo nas suas necessidades. A igreja vem e entende que precisa transformar o dízimo em dinheiro para manter os templos que ninguém mandou construir. E continua negligenciando no princípio da ordenança. Ainda transforma isto em obrigação e coloca o peso das ameaças nos ombros de quem não contribui com o imposto, quando num estudo menos superficial sobre o tema, libertaria na verdade muitos cristãos ludibriados.

Aí vem o religioso que nada entendeu e tenta arrebanhar para o mesmo ambiente de ilusão, outros que ainda não fazem parte e chamam isso de evangelismo. Evangelizar não é fazer proselitismo, nem socar pessoas em fôrmas, nem estimular a frequência nas programações vazias do templo. Evangelizar é tão somente anunciar ao mundo que o preço foi pago, para que se alegrem em Cristo e tenham uma vida de leveza e fundamentada no amor ensinado por Ele.

A Igreja de Cristo prevalecerá até a consumação dos séculos, quando vencedora se unirá finalmente ao Noivo nas bodas do Cordeiro. Sua essência é o amor que recebeu primeiro e correspondeu quando viu o próximo como extensão de si mesmo e o serviu como gostaria de ser servida. 

Toda essa segregação que classifica pessoas, que se baseia nos próprios méritos e esforços pra se manter nos trilhos de ideias de homens, tudo isso é apenas distração para o corpo e a alma, não tem nada de espiritual. São meninos se alimentando eternamente de leite, atrofiando o crescimento que os tornariam cooperadores de Cristo no chão da vida e não num cercadinho de concreto.

Deus se agiganta na vida do que se reconhece pequeno, frágil e dependente, porque este, constrangido pelo grande amor com que foi amado, por estar enxertado na Boa Oliveira que é amor, só tem como frutificar segundo Cristo, pondo em prática suas palavras que são espírito e vida para quem crê.

Que o Senhor arregale os olhos espirituais dos homens de boa fé.

sábado, 7 de abril de 2018

Deus não tem religião, Deus é amor.

Acabei de ler uma frase de Lucas Lujan e uma enxurrada de lembranças e pensamentos me vieram pra corroborar com a ideia. Lembrei-me o que faz com que eu sinta cada vez menos vontade de frequentar ambientes evangélicos e tornam minhas visitas à estes amigos cada vez mais escassa. Mesmo depois de decidir não fazer parte desse conjunto de coisas, posturas, costumes, rotinas, enfim, fiz questão de manter algumas amizades que foram importantes durante muitos anos da minha vida e simplesmente deixaram de ser quando me rotularam como desviada. Parece que a admiração que tinha por elas escorreu pelo ralo abaixo, quando vi que tudo não passa de uma mera ilusão ao próprio respeito. Inebriados com a ilusão de mérito, descartam a Graça que é justamente o favor imerecido. 

"Não é problema ter uma religião. O problema é achar que Deus também tem, e é exatamente a sua. Essa é a raiz de todos os abusos religiosos." Lucas Lujan

Sobre esta ideia quero lembrar o seguinte: Somos verdadeiramente cristãos? Olhemos então para Cristo e sejamos honestos. Foi Ele quem mandou construir um templo de concreto, deixar a porta aberta para que as pessoas decidissem entrar durante um culto, estabeleceu novas tradições e rituais, posturas, programações, estatutos e ordenou o dízimo para a Igreja? Ou Ele desconstruiu toda a religiosidade, se apresentou como o Templo e disse que Nele seriamos reconciliados com Deus de uma vez por todas, sendo Ele mesmo a oferta pelos pecados e o dízimo dado em favor de nós os necessitados, antes mortos mas trazidos como despojos para Deus? Ele ensinou uma postura e um modo de vida baseado no amor que nos aperfeiçoa e foi o parâmetro de seus seguidores.

Então, porque a hipocrisia continua tão viva no meio religioso? Sinceramente, acho saudável que um ambiente de comunhão seja organizado, desde que seja de fato um ambiente de comunhão, onde as pessoas tem prazer nos encontros e se fortalecem no abraço e na mesa posta para entrarem em sintonia umas com as outras. Onde um participa das alegrias e tristezas do outro e lhe serve de suporte, apoio e orientador da Palavra. Mas não é isso o que acontece quando um ceia de costas para o outro, num ritual cego, onde não cumprem o que Cristo propôs na última Ceia. 

Alí, Ele instituiu o compromisso que temos como irmãos, de dar nossa própria carne em favor do grupo, em memória do que Ele fez, dando o sangue se necessário fosse, como Ele mesmo derramou. Priorizando o outro e não se servindo primeiro. 

Enfim, depois de todas as distorções e conhecendo o pensamento infantilizado dos irmãos, vale cada vez menos a pena me deslocar do meu lugar, para ser olhada com desprezo por gente que nada entendeu. Quando quero simplesmente visitar a Igreja, vou onde sentir vontade, dando preferência onde ninguém vai me discriminar. E sirvo na vida, nas necessidades das pessoas que me cercam, independentemente de suas crendices que pra mim nada são. Prefiro, porque me poupo também de me decepcionar mais ainda com pessoas que estimei tanto.

É encucado com tanta veemência que essa raça é de gente privilegiada, que não fazem contato com a verdade de que só precisam de um Salvador mediando, porque a humanidade está no mesmo patamar de separação de Deus, por causa do pecado. E somente há relacionamento por meio da obediência à Cristo. Ele mesmo disse que tantos que o chamam de Senhor ficarão de fora, justamente porque não ouviram suas Palavras que são espírito e vida, mas se prenderam nas distorções.

Deus é antes de tudo, antes inclusive da sua religião. Ninguém pode encaixotá-lo e monopolizar seus feitos e favores. Ninguém pode reter seu poder e direcionar seu amor. Sua misericórdia é para quem Ele quiser e desde que mundo é mundo, muitos são os seus servos, chamados do meio da imundície dos homens. 

Deus não tem ilusões ao nosso respeito, Ele sonda nosso coração. Não é barganha, nem teatro, nem presença em programações e entretenimentos religiosos, que nos farão mais aceitáveis em sua presença, mas simplesmente guardar as Palavras do filho de seu amor.

Eu sei o mal que faz na vida de alguém ser encucado de uma mentalidade limitadora de pensamentos e castradora da liberdade. Me submeti durante muitos anos a ser fantoche da ideia de homens, mas cresci e larguei as coisas de meninos. Entendo que tem gente tão infantil que precisa desse mecanismo, desse suporte, dessa dinâmica, desse contexto religioso pra conseguir fazer contato com o sagrado, mas o acesso à presença de Deus foi conquistado de uma vez por todas por um só, para todo aquele que crê. Está consumado, ainda que alguns achem que precisam completar a obra redentora.

Enfim, pior do que não ter fé alguma, é ter fé em si mesmo e viver como se estivéssemos olhando o próximo de cima para baixo, sem entender que quando Deus nos olha, é a Cristo que Ele procura em nós. E se nossa essência não for amorosa por causa Dele, continuamos destituídos de sua Glória.





quinta-feira, 29 de março de 2018

A dor de crescer

Para que o fruto de uma árvore seja saboreado, é necessário que uma semente morra e dê origem à uma nova árvore e que com o tempo ela floresça e depois frutifique. E por último é necessário que o fruto amadureça, só então o ele estará pronto para ser saboreado. O novo fruto está alí, mas para trás ficou todo o processo e ninguém pensará naquela semente de origem, enquanto se alimenta do fruto. Quantos e quantos ciclos como este acontecerão, sempre deixando para trás a vida de uma semente?

Cada vez que se gera uma vida, ficou para trás uma menina, uma mulher, um homem. Não apenas nasce uma criança no mundo e com ela a nova mãe, mas morre toda uma estrutura já estabelecida. 

Me lembro bem que depois do parto, antes mesmo de me recuperar das dores físicas, me entregaram meu filho nos braços e foi um misto de sentimentos: eu estava encantada com a beleza e perfeição, mas sabia que alí nascia um laço pra toda a vida, uma responsabilidade que jamais me deixaria e aos vinte anos, eu estava com muito medo do que viria pela frente. Morria a minha inocência, minha condição de menina, minha liberdade pra escolher uma realidade diferente daquela. Nascia uma adulta com um pedaço a menos da alma para que a vida a completasse. Nascia aquela que pra sempre teria que priorizar o outro, porque ser mãe nem sempre é um mar de rosas. 

No meu caso, a sensação de tristeza constante, vez ou outra uma depressão mais consistente, acontecia ao deparar com a longa caminhada de declives e escaladas concernentes à realidade. Separação, desemprego, mudança de Estado, falta de estrutura... tudo para chegar no patamar que estou hoje. Ganhar experiências dói pra caramba.

Durante toda a vida passamos por várias situações de lutos enquanto crescemos e ganhamos experiências. Para ser alguma coisa, sempre deixamos de ser outras ou sempre deixamos outros cenários para trás e isso dói. 

Sem contar as mudanças interiores, onde deixamos constantemente um pedaço da crosta do "si mesmo" que nos envolve, para que o âmago valioso se apresente ao mundo. Geralmente para a parte preciosa ficar aparente, a lapidação vem através de decepções, abusos, perdas, disputas, dores que fazem parte desse crescimento.

Recentemente, ao mesmo tempo que perdi minha mãe, me tornei avó. Senti bruscamente a morte também da filha, enquanto boa parte da mulher interior também se foi. Se antes eu me via como mãe e filha, agora me vejo como mãe e avó, entrando no climatério e sem tanta energia para novas escaladas e declives. Entrei num ritmo de caminhada lenta e mais suave, sem grandes expectativas e sem tanto investimento de energia.

Olho para trás e já não lembro muito bem onde deixei aquela menina sonhadora e pueril. Não sei onde foi parar a mulher romântica e cheia de sonhos, sei que fui boa filha até o final, mas lá se foi o primeiro ano de separação da minha mãe e as lembranças começaram a ficar embaçadas. Pra ser quem sou hoje, quantos lutos foram necessários? Quem sente falta da menina, mulher e mãe que fui. Hoje sou avó, isto é o que sou. E acho que ser avó é a melhor coisa da vida, mas algo dentro de mim deixou de existir para que essa nova realidade florescesse. 

Como amiga, sempre fui muito intensa e entregue. Perdi a conta de quantas vezes me prejudiquei para poder ser útil à alguém. Mas com o tempo, percebi o quanto tonta era, ao acreditar que a recíproca era sempre verdadeira e que as pessoas me enxergavam com o mesmo olhar que eu as enxergava. Depois de muitas traições e abusos, hoje sou muito mais maliciosa na hora de me aproximar de alguém. Estou sempre me resguardando para não reviver as mesmas situações. Ganhei amor próprio, mas perdi aquela capacidade de confiar no ser humano.

Sim, nada na vida é sem dor, a felicidade e a infelicidade são momentos que andam juntos. Ora um sobressai, ora outro, mas estão sempre acoplados um ao outro, apesar da ilusão de alguns.

Assim, aos trancos e barrancos a gente morre um pouco a cada dia para esta natureza corrompida, enquanto uma nova natureza vai sendo edificada. Um dia seremos nova árvore, daremos novos frutos, recomeçaremos plenos e completos. Mas até lá, nada será sem luto.


A vida dói, sempre dói. Então, você contorna a dor na esperança de extingui-la. Mas ela ainda está lá e sempre estará, até que você a encare e passe por ela... depois junte os cacos e veja o que te espera na página seguinte. Talvez um período de trégua, talvez uma nova crise e mais dor.

É isso o que nos humaniza e aperfeiçoa. É assim que nos unimos e nos tornamos o mesmo corpo. Amadureça para esta realidade, porque a capa de ilusão cobre a fraqueza, mas a conscientização da nossa condição nos aproxima de Deus, que nos fortalece.



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Sobre o vício de sofrer

Sabemos que a felicidade é um estado utópico. Uma pessoa madura, já entendeu que tanto a felicidade quanto a infelicidade caminham juntas, porque são meros momentos. Não é possível estar pleno num mundo cheio de contingências, onde qualquer imprevisto pode aniquilar com a calmaria. Onde a paz pode ser interrompida de uma hora para outra. Além do que, ninguém consegue estar suprido em todas as áreas da vida ao mesmo tempo, ou este mundo seria perfeito e nossa esperança no porvir seria em vão. Pra que um Salvador, se não vivemos inseridos na corrupção? Pra que a restauração de todo o sistema, se houvesse a possibilidade de estarmos 100% satisfeitos nesse? Sempre haverá declives e escaladas, quedas e muito esforço na caminhada.

Mas essa consciência à parte, estamos tão habituados com as adversidades que encontramos na vida, que alguns de nós simplesmente se viciam em carregar fardos desnecessários. Ultimamente observo alguns comportamentos e só posso lamentar a dificuldade de alguns para administrar a própria liberdade, a vida abundante que já receberam e a cegueira pras coisas óbvias. Se apegam tanto à dor, que o sofrimento passa a fazer parte de suas vidas. Drummond tem uma frase famosa que diz: "A dor é inevitável. O sofrimento é opcional". E de fato, não podemos prever as dificuldades que vamos enfrentar, embora na maioria das vezes são colheitas do que nós mesmos plantamos. Mas permanecer no sofrimento, pode ser uma escolha inconsciente.

Já ouviu dizerem que o filho mais protegido, se torna o filho mais fraco? Porém, soterrado debaixo da aparência de cuidado, tem uma mãe viciada em ser o suporte do filho problemático. Ela estará sempre pronta a socorrer o filho que será sempre reincidente. E só encontrará função pra própria vida, enquanto o filho estiver precisando dela, dependendo de seu socorro. Inconscientemente, ela encontrará uma forma de conservá-lo sempre na posição de dependente. E alimentará sua vaidade de "boa mãe" em cima da imaturidade e fraqueza do filho. Alguns se compadecerão dela e odiarão o filho, mas aos seus próprios olhos, ela está fazendo o bem. Se porventura o filho conseguir se virar sem ela, sofrerá da síndrome do ninho vazio. Está viciada em carregar fardos insuportáveis nos lombos, em troca de um suposto valor.

Observo também o caso da mulher que reclama da vida, da saúde, do lugar onde vive, do cansaço, da distância, da solidão, das dificuldades, do abandono, da falta de ânimo... mas não aceita opinião, nem conselhos, nem solução vinda de fora. Sob a ilusão do "eu escolho, eu me viro, eu quero assim", perpetua a própria insatisfação e seu vício em reclamar da vida. Na verdade qualquer sugestão é encarada como invasão. A impressão é que está tão habituada com o sofrimento, que não vai saber lidar com a paz, a companhia, o ambiente melhor. Prefere a ilusão de autonomia, do que se deixar ser ajudada. E o "seu" sofrimento, será sempre seu.

Tem também a moça que terminou o relacionamento, achando que o rapaz ficaria insistindo em reatar. Quando viu que o rapaz não lutou, nem insistiu, nem quis voltar, se descobriu apaixonada e passou a nutrir um sentimento que ficou mal resolvido na alma e adoeceu o corpo. Se antes o pequeno problema podia ser resolvido com bom senso, depois o sofrimento afetou uma família inteira. Se justifica dizendo que tem pavio curto o que fatalmente trará frustração em outros relacionamentos, já que é algo que ela "tem". Enfim, são exemplos corriqueiros, comportamentos que se repetem, só pra ilustrar o que estou dizendo. 

Dizem que a depressão é algo físico, porque há uma baixa na serotonina, hormônio do humor. Mas penso que é justamente o contrário. A depressão é resultado do sentimento de impotência, que se torna autocomiseração e provoca a baixa da serotonina, fazendo a pessoa se entregar ao abismo que a atrai. É uma doença psicossomática, causada por uma dor na alma que não é resolvida e evolui para uma doença no corpo e na mente.  O mal do século não é outra coisa, senão pena de si mesmo por achar que não merecemos o sofrimento. Mas que sofrimento? Aquele que também não queremos nos livrar. Ou simplesmente não reagimos e nos entregamos a ele.

A vida tem sim os seus obstáculos, mas nós temos a responsabilidade de escolher o melhor para nós e para os que nos cercam. Há tempo para chorar, sorrir, plantar, colher, se achegar, se afastar... enfim, viver é o conjunto de tudo e saber viver, é tirar proveito de tudo. Está bom? Ficamos. Não está bom? Mudamos. Precisou? Estamos disponíveis. Rejeitou ajuda? Nos retiramos. Errou conosco? Perdoamos. Não aceitam nosso amor? Há quem necessite dele. A vida pode ser muito mais leve. A dor é inevitável, mas o sofrimento será sempre opcional.


sábado, 16 de dezembro de 2017

Sobre o Natal

Há alguns anos venho tentando falar sobre o Natal com alguns religiosos e percebi que a tradição evangélica é muito mais blindada do que imaginava, ao ponto de negligenciarem o Evangelho para protegê-la. Nesses dias, consegui explicar num site de ateus, o porque de Jesus não instituir a comemoração de seu nascimento, mas ao invés disso, mandou-nos comemorar a sua morte.

O Cordeiro foi imolado antes da fundação do mundo, como um arquétipo do sacrifício salvífico realizado por Jesus dentro da história, quando o plano de Deus foi consumado. Assim, apesar da vida e morte de Jesus ter sido manifestada no tempo oportuno na cronologia, sabemos que Deus é atemporal e conhece o que ainda nem aconteceu.

Uma coisa é compreender a necessidade da encarnação do Verbo de Deus, para que através das palavras que são espírito e vida, possamos ser aperfeiçoados no amor. Outra coisa é se fixar no Jesus homem, temporal, histórico, ao ponto de mistificar cada um dos 33 anos que viveu como homem. Corre-se o risco de não reconhecê-lo como Deus eterno.

Passaram a chamar o Natal de "aniversário de Jesus". Esse é o perigo da alienação religiosa. Jesus homem viveu 33 anos, fim. Comemorar aniversário de Jesus, é não aceitá-lo como Deus. O Eterno não aniversaria. Tem cristãos propagando que Jesus está completando 2017 anos , veja que cegueira!

A morte Dele nos deu vida, por isso Ele mandou comemorar. Mas se fixar no Jesus histórico e achar que o Natal é o aniversário dele, é incoerente para quem se diz servo de um Deus eterno. É apenas mais uma baboseira de Constantino e da igreja que se corrompeu com ele e se tornou uma nova religião.

O natal é uma festa pagã? Bom, Jesus mandou comemorar a morte, ceando, porque é por meio dela que receberemos a Vida. Comemorar o nascimento é coisa da religião e a data nem coincide com o nascimento de Jesus. 


O nascimento de Jesus aconteceu entre Maio e Agosto, começando por aí. 

O que a História diz sobre os fatos? Por volta do dia 25 de Dezembro acontecia uma festa pagã em homenagem ao deus Sol e no século IV aproveitaram a data para oficializar o Natal. Não é bíblico e é resultado da corrupção da Igreja primitiva com a política romana. Ali nasceu o Cristianismo como religião e começou a ser deturpado o Evangelho como fé. 

Sobre comemorar o Natal hoje: O que eu acho é que se tornou uma questão cultural e que os cristãos elevam o pensamento à Cristo e a maioria é gente simples que não tem condições de discernir muitas coisas. Se há sinceridade de coração, mal não fazem em comemorar o Natal, nem congregar em templos que Cristo não mandou construir. O mal está em mistificar os lugares de reunião, ou se fixar tanto no Jesus homem, ao ponto de não conseguir entender que o Filho é figura para que o homem assimile o grau de amor na Redenção.

Ele é Deus e não nasceu e nem morreu porque é de eternidade à eternidade. Sabendo diferenciar o Jesus homem, temporal, nascido de Maria, gerado pelo Espírito, mas com trajetória e sequência de fatos na história até ascender aos céus e o Cristo que é o Alfa e o Ômega, princípio porque estava na criação e fim porque Reina para sempre, não há mal em comer junto, socializar, trocar lembranças, amigo oculto, nem participar dos eventos religiosos como cantatas, apresentações, corais, etc.

Eu monto árvore de Natal, faço tudo isso com minha família, preparo ceia, rabanada e tudo o que tenho direito, porque não cultuo o deus Sol, não cultuo Maria, não tenho nada a ver nem com religião e nem com a antiguidade e a origem das coisas. Sou serva de Cristo e Ele me faz verdadeiramente livre. Fazer ou não fazer é o de menos, precisamos apenas ter consciência da verdade.

Me importa saber que o amor encarnou e andou com os homens, cumpriu as escrituras e se fez o meu Mediador, Salvador e Senhor. Se está tudo consumado, já não há o menino Jesus e se não for pela oportunidade de comunhão com familiares e amigos, o Natal será só mais uma ocasião para confusões, gastos desnecessários, caridades hipócritas e culto à uma mentira, porque até a sua data é fictícia.

Estava sobre Ele o castigo que nos traz a paz da reconciliação com Deus, morremos sua morte pra vivermos sua vida. O símbolo dos cristãos é a Cruz e não a manjedoura. Antes de ser neste mundo, Ele era e será eternamente.


domingo, 3 de dezembro de 2017

Descanse em quem cuida de você.

Deus, que é amor e sabe o material de que fomos feitos, conhece nossa estrutura e sabe quando deve nos socorrer para que não sejamos tragados pela frieza e falta de fé. Ele nos socorrerá no devido tempo, para que não o conheçamos apenas de ouvir falar, mas como a um Pai que se relaciona com os filhos em amor.
Viveremos momentos de tristeza, inquietações, dores e desestabilizações, mas não perderemos a esperança em Cristo, pois as provações nos filhos, produzem sempre a perseverança, experiência e mais esperança.
Tão certo como vive o Senhor, cada dia trará o seu mal. E tão certo quanto as aflições chegarão, também nossa esperança nos manterá firmes, confiando em Cristo.
Não, eu não sei o que é bom para mim. Talvez o que eu chame de solução para meus problemas, me faça sucumbir no meio deles até perder as forças. Assim, esvazio-me da minha vontade e descanso em Deus, que me viu antes da fundação do mundo e sabe do que de fato preciso.

Tudo coopera pro nosso bem

Um servo diante de seu Senhor, não tem o poder de persuadí-lo à fazer sua vontade. Em se tratando da Soberania de um Deus que criou cada coisa com seu propósito e decretou desde a eternidade, o tempo certo para que cada coisa fosse consumada na história, é possível alcançar o grau de infantilidade estabelecida no meio cristão, onde se crê que uma oração tem poder de mudar os desígnios de um deus inseguro, que pra mudar o próximo capítulo da história de alguém, este alguém deve dar as coordenadas numa oração determinada.

Desperta, você que é Igreja! Não podemos mudar o que Deus estabeleceu desde os tempos eternos. Ele não lançará mão do que Ele mesmo designou. Sua vontade é imutável, tanto quanto Ele mesmo é imutável.

Humanizamos Deus e o diminuímos para que caiba em nossos conceitos, tornando-o tão medíocre quanto cada um de nós, que mudamos nossos desejos, conforme a oscilação das nossas próprias emoções. Buscamos algo hoje com tanto afinco e amanhã precisamos de uma outra motivação para continuar vivos. Hoje queremos o que amanhã repelimos.

O fato do homem querer, não faz com que Deus queira e não parte do homem a diretriz de como Deus vai governar a vida. Não é o homem quem escolhe o caminho por onde Deus deve conduzí-lo. Não existe Soberano que se sujeite ao servo.

O deus deste século, está disposto a se sujeitar à inconstância do homem que criou e obedecer ao servo, para não correr o risco de ser abandonado. Ver filhos frustrados, deve colocar este deus em crise existencial, por isso atende a todos os caprichos dos evangélicos mimados.

Pela linha religiosa, não vamos a lugar algum, antes retrocederemos até virar amebas cumpridoras de dogmas, rituais e estatutos humanos. O mais sábio é voltar à Bíblia e compreender que no chão da vida, nas contingências, percalços, insegurança dos problemas, dores e decepções, se cresce e se amadurece no crescimento em amor, fé e esperança.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Fujam destes

A igreja evangélica em sua grossa maioria (ainda existem algumas exceções), tem utilizado o nome de Jesus para atrair um povo que não busca exatamente o Evangelho, mas uma forma rápida e fácil de se estabelecer nesta vida, de se livrar dos problemas, de driblar a vulnerabilidade física e de subir o patamar da raça de privilegiados.
Assim, elegem para si líderes que massageiam o ego, enquanto as bênçãos de Deus viram moeda de troca, mediante a barganha, onde quem dá mais, tem muito mais chances de ser contemplado com um ato de misericórdia. Muito nojo, muita carnalidade em nome de Deus. Muito alimento podre, que ao passo que enchem o estômago, contaminam e adoecem todo o resto, afastando da verdade, àqueles que se dizem sacerdócio real.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

1º aninho




Bem mais precioso da minha vida. 
Amor que transborda e inunda meu ser. 
Já não lembro como era, nem como vivia
Simplesmente só fui plena, depois de você.

Eu te abraço ou você me envolve?
Sou eu que te beijo ou recebo calor?
Eu que me entrego ou você me devolve?
Na vida o que vale, é essa troca de amor!

De qualquer jeito eu sei que te amaria,
Mas te olhando lindo assim, eu nada mudo
Coisa tão rica, minha alegria, meu orgulho
Te amo tanto, te amo muito, te amo tudo!

Eu te sonhei e hoje sou realizada 
Sou grata à Deus por ter-me sido propício 
Pois você é o melhor do meu mundo 
Minha alegria tem nome e é Maurício.

Está feito!

Ou você é uma carta viva, ou não serve para testemunhar. Testemunho não é contar o antes e depois, porque se a Bíblia diz que você estava morto e agora vive, surpresa é você ter o contrário pra contar. Testemunhamos a quem pertencemos, sendo parecidos com Ele.
Ou você enxerga o mundo como um campo missionário, ou não serve pra evangelizar. Evangelizar não é fazer proselitismo religioso, nem campanha pra ocupar bancos e aumentar arrecadações. Evangelizar é contar para as pessoas o que JÁ foi feito por elas.
Ou você vê Cristo em seus pequeninos, ou não serve para contribuir com a Obra.Oferta verdadeira, foi feita por Deus em nosso favor, Dízimo verdadeiro, foi entregue por Cristo em nosso lugar. Cabe à nós amar e servir-nos uns aos outros.
Ou você entende quem é em Cristo, ou não serve pra ser Igreja. Se o próprio Deus escolheu habitar em Templos de carne, por que você torna mística a construção que serve como congregação? Ninguém foi chamado pra viver em função de templo, a Igreja foi chamada pra atuar na vida e no mundo.
As marionetes da religiosidade serão sempre conduzidos por um sistema que manipula a Palavra em seu próprio benefício. Mas aqueles a quem o Senhor chama, são livres para fazer a vontade do Senhor, porque antes de tudo, Evangelho é a Boa Nova de Salvação, está consumado de uma vez por todas!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Dízimo de Abraão, da Lei e das Igrejas

Pra começar este assunto polêmico, já digo que não estou em nenhum rol de membros institucional por opção e por amor à minha liberdade de pensar e discernir a revelação bíblica, sem correr o risco de afrontar ninguém em seu ambiente de culto. Assim, não pertenço à organização nenhuma, me contento em ser só de Cristo mesmo.

O assunto "dízimo", que divide grande parte dos evangélicos, confusos entre o que a Bíblia revela e o que se prega nos púlpitos, vejo que a maioria ainda opta em continuar separando mensalmente 10% de seus rendimentos, como forma de se proteger do tal devorador, da maldição e do terrível pecado de roubar a Deus. Veremos sobre a Lei do dízimo daqui a pouco.

Primeiramente, quero falar um pouco à partir do livro de Hebreus, que menciona Abraão e Melquisedeque, Rei e Sacerdote que recebe depois de uma guerra, uma oferenda à Deus, contendo a dízima de todos os despojos. Segundo o escritor de Hebreus, Melquisedeque simbolizava o sacerdócio eterno, maior do que o sacerdócio temporal que Abraão trazia nos lombos, pois dele nasceria a nação de Israel. Quem recebeu, é maior do que o que fez a oferenda. Ou seja, a Ordem de Melquisedeque, eterna e atemporal, representava o sacerdócio eterno de Cristo, maior que a Ordem de Aarão, que mais tarde recebeu a Lei para o povo de Israel, uma ordem temporal e imperfeita, que apontava para o que mais tarde se revelaria por meio de Jesus encarnado.

Os despojos, eram tudo o que restavam das guerras, uma espécie de prêmio para quem vencia. Não apenas bens materiais, mas também as ruínas e os corpos e escravos daqueles povos.

Colossenses 2:15, menciona a guerra espiritual vencida por Cristo na Cruz, onde ele prega na Cruz o escrito de nossas dívidas. Humilha o príncipe deste mundo e toma dele os despojos, ou seja, os reinos que ele ofereceu a Jesus no deserto e os que antes estavam mortos em seus delitos e pecados, escravos de si mesmos, transportando-os para seu Reino de amor, religando-os de volta para Deus. Ou seja, Dízimo perfeito, foi Jesus quem realizou de uma vez por todas. O Sumo-sacerdote eterno, segundo a Ordem de Melquisedeque, conquistou para Deus um sacerdócio real, povo exclusivo seu, agora livres. Para trás ficou a Ordem de Aarão, com sua Lei que jamais justificou alguém, mas revelou as misérias humanas e apontou para a necessidade do Salvador. 

Colossenses 2:16, revela que o Velho Testamento é sombra, revelada pela Luz do mundo, Jesus. Nada mais está encoberto, está consumado. Novo sacerdócio, novas Leis. Ou seja, o episódio onde Abraão oferece à Melquisedeque o dízimo dos despojos, apontavam para Cristo vitorioso, entregando para Deus o seu povo, Reis e Sacerdotes segundo a Ordem de Melquisedeque. Compreendido o dízimo de Abraão? Alguma associação com os dízimos mensais das igrejas, onde o membros separa a décima parte de seus rendimentos? Nenhuma, até porque, se a Igreja necessitasse deste ritual, o dízimo de Cristo não teria sido perfeito.

Agora vamos ao dízimo da Lei, que nada mais é do que um princípio de igualdade social, onde quem tinha terras e produzia, separava uma porcentagem e entregava à quem não tinha de onde tirar o sustento: Sacerdotes, Levitas, órfãos, viúvas, estrangeiros... todos aquele que não tinha direito à terra, recebia e consumia os mantimentos que enchiam as dispensas do Tabernáculo, depois do Templo. Era anual, era comida, era a providência de Deus para que houvesse igualdade.

Só os Levitas tinham autorização para receber dízimos e repassar esta comida aos necessitados. Pois bem, fica muito fácil entender agora porque Jesus não mandou a Igreja continuar dizimando. Era Lei e como Lei, revelou a miséria dos sacerdotes que roubavam a Deus, negligenciando no real sentido do dízimo, que era suprir. Tomavam os dízimos e as ofertas, mas completamente divorciados de Deus e de Sua vontade, tratavam com desprezo os necessitados.

“Os seus sacerdotes transgridem a Minha lei, e profanam as Minhas cousas santas; entre o santo e o profano não fazem diferença; nem discernem o impuro do puro; e de Meus sábados escondem os seus olhos, e assim sou profanado no meio deles. Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem o sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza. E os seus profetas têm feito para eles reboco de cal não adubada, vendo vaidade, e predizendo-lhes mentira, dizendo: Assim diz o Senhor Jeová; sem que o Senhor tivesse falado. Ao povo da terra oprimem gravemente, e andam roubando, e fazem violência ao aflito e ao necessitado, e ao estrangeiro oprimem sem razão.” Ezequiel 22:26-29.

Alguma relação com o dízimo pregado nos púlpitos? Alguma associação com o salário mensal dos fiéis? Nenhuma.

Outro dia postei a seguinte frase: "Nunca assisti nenhuma pregação honesta com relação ao dízimo. " E nenhum dos meus seguidores ousou me apoiar com sua "curtida". Pudera, com tantas ameaças de maldições, distorções e domínio de consciências por meio do medo, poucos se sentem à vontade para divergir dos líderes religiosos. Preferem acatar.

Não que eu seja contra que as pessoas que usufruem do prédio e da comodidade de suas dependências, sustentem as despesas dele. Sou contra a distorção da Palavra e da escravização dos que Jesus libertou. Se o dízimo nunca foi dinheiro, por que chamar as contribuições de dízimos? Por que mistificar as contribuições e forçar para que elas sejam mensais? Seria mais honesto e cristão, ensinar o amor às vidas que se beneficiam da instituição e a responsabilidade de cada um deles em manter as portas abertas. Contribuiriam com alegria e não pelo sentido de obrigação de cumprir um dever.

Enfim, aos que já se libertaram das distorções religiosas, cada vez que você se deparar com alguém em alguma situação de necessidade, se alegre em poder ajudar. Melhor é dar que receber, não é? Deus te deu esta condição e fazer o bem é gratificante pra qualquer pessoa, muito mais quando temos a consciência de que é Jesus na pele destes pequeninos. Isto fará muito mais sentido do que pagar contas de água, luz e telefone de uma empresa religiosa ensimesmada e mentirosa.

E cada vez que algum líder distorcer a Palavra para lançar peso sobre o dorso de seus membros, lembre que a Graça é leveza e suavidade. A religião será sempre acusadora e castradora da liberdade, mas Jesus oferece alforria.

Seja o dízimo de Abraão ou o dízimo da Lei mosaica, nada pode legitimar o dízimo das igrejas evangélicas que tem raiz no medo de faltar recursos para pagar contas e salários. Ou seja, falta de fé de que o Senhor da Obra a manterá funcionando.

No mais, voto que as contribuições (que não são pecado) sejam chamadas de contribuição mesmo, porque Oferta eficaz foi oferecida por Cristo em nosso lugar e Dízimo Perfeito, foi oferecido por Cristo após consumar a Redenção. Tudo o que veio depois, é usurpação dos méritos de Cristo e isto é um erro muito grande e de consequências eternas. É impossível ser menino e adulto ao mesmo tempo. Viver a Lei e a Graça ao mesmo tempo, Quem escolhe cumprir a Lei, confiando em seus próprios méritos, rejeitou o sacrifício de Jesus e nada entendeu sobre a Cruz.

Ora, muitas pessoas nunca tiveram oportunidade de serem ensinadas e outras, mesmo ouvindo não discernem espiritualmente as coisas espirituais. Mas a Bíblia é uma mensagem global onde tudo se encaixa perfeitamente. Leitura de versículos isolados, com interpretações obscuras são carnalidades que se cometem em nome de Deus. Enquanto isso, o rebanho de tolos vive uma vida de repetições de rituais vazios e cumprindo suas tradições religiosas, sem entender nada do que professam como fé. Permanecem na sombra, tendo já a Luz do mundo revelado todas as coisas.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cantiga de vó







Desde o dia natalício
muitos fogos de artifício
todo momento é propício
meu completo benefício
sim, valeu o sacrifício
hoje, de dor, nem resquício
você tornou-se meu vício
estar contigo, prazer vitalício
meu sempre amado, Maurício!

Liga não, a vó fica boba de tanto amor
Valeu cada dor, cada angústia, cada medo
Pra te ter perfeito nos braços
nos mil beijos e abraços
nas canções, entre os brinquedos

Meu tesouro de raro valor,
minha criança querida
meu sonho realizado
quero estar ao seu lado
pra sempre, por toda a vida

* Maurício foi gerado num ambiente instável, por uma mãe portadora de uma síndrome rara, correndo vários riscos, entre incertezas e inseguranças... enfim, é um guerreiro, um vencedor e nasceu para iluminar nossas vidas, trazendo cura, alegria e esperança.



sábado, 7 de outubro de 2017

Humanidade

Como as parábolas de Jesus, que revelavam as coisas espirituais fazendo alusões com coisas e situações do cotidiano dos ouvintes, creio que em toda a Bíblia, Deus usa de linguagem metafórica para revelar o Evangelho e apontar para Cristo. Não diferente disto, leio a narrativa da criação, como se estivesse ouvindo uma poesia cheia de figuras com mensagens claras sobre a humanidade e não apenas literalmente sobre o que aconteceu com Adão e Eva.

Vejo sim um menino empolgado escolhendo nomes para os animais e conversando com Deus como um amigo íntimo. Vejo-o entristecer por causa da solidão como quem entra na adolescência com suas crises existenciais. Vejo-o tão apaixonado, que prefere fazer a vontade da mulher do que obedecer à Lei que recebeu. Vejo-o na idade da rebeldia, perder a inocência diante da árvore do conhecimento do bem e do mal, onde pretendeu ser igual à Deus, negando-lhe o centro de sua vida. Vejo-o envergonhado por se enxergar nú, como quem reconhece que nada é seu. Vejo-o acusando a mulher, como quem tenta se esquivar das responsabilidades de ser quem é. Escondido como quem deve, amedrontado pela certeza de ter consequências à colher, resignado com a sentença de perder os privilégios, imerso na condição de pecador para sempre. Nada diferente de cada um de nós, que em certa fase da vida também se rebela, escolhe e colhe as consequências do que plantou. 

Cada um de nós é tentado pela própria concupiscência. O que nos seduz, está fincado na nossa carne como o espinho que Paulo descreveu e milita contra nosso espírito.

O trabalho da "Serpente" não foi outro, senão despertar no homem, sua cobiça, sua concupiscência, seu ego. O que nos seduz, é algo que já está estabelecido pelos nossos desejos mais íntimos. O mal se apresenta com a aparência de bem, mas é sempre um desastre. 

Pois bem. Já li e ouvi inúmeras pregações à respeito da queda humana, sempre muito superficiais. Fica sempre no ar, um quê de injustiça, pois a humanidade herdou tudo o que há de mal, à partir da rebeldia de dois adolescentes que não sabiam discernir por não terem experiência alguma e uma figura astuta passou-lhes a perna (por isso as perdeu haha).

Mas se formos um pouco mais atentos para o fato de que o mal já havia (lembram da Árvore do conhecimento do bem e do mal?) e que a Serpente foi certeira ao seduzir o casal, dizendo que eles seriam iguais à Deus, constataremos que a arrogância foi tamanha, quando as criaturas desejaram usurpar um atributo que pertencia ao Criador. E uma ofensa à um ser Eterno, tem no mínimo consequências eternas.

Conhecedor de todas as coisas (lembram que a redenção estava em seus planos antes da fundação do mundo?) a pergunta "Onde estás?", serviu para que o homem se enxergasse longe da vontade de Deus. Cada vez que um homem se afasta do centro da vontade de Deus, esta pergunta lateja em sua consciência e por isso todos são inescusáveis (Rom 1:20). Obviamente Deus sabe onde cada um de nós está, mas nossa resposta, pode ser um despertamento para arrependimento.

A parte mais bonita que vejo nesta narrativa, é o gesto de amor que Deus tem, quando providencia-lhes vestes que cubram sua vergonha. Porque isto acontece após o homem reconhecer sua nudez e recebe perdão através do sacrifício de sangue. Apesar do casal colher as consequências de seu erro, vejo que o amor de Deus é o mesmo, cobrindo-lhes de misericórdia.

Para mim, apesar do pecado ter entrado no mundo por meio de um, cada homem responde por si. Todos nascemos com esta terrível tendência à escolher nossa própria vontade, em detrimento à vontade de Deus. E o auto domínio só é possível por meio da mortificação do ego. O negar-se tão aconselhado por Jesus.

Não sei se Adão tinha umbigo (:P) mas com certeza foi egocêntrico. E o homem que se coloca no centro e vê a vida a partir do próprio umbigo, é incapaz de viver o amor, que não visa o próprio bem, mas se manifesta sempre na direção do outro.

Não, não consigo crer que tenha acontecido algo que tenha fugido do controle de Deus. Aconteceu justamente o que deveria acontecer, para que o homem se enxergasse como é e entendesse sua dependência do cuidado, misericórdia e amor o tempo todo. Assim como a Lei veio depois mostrando que não havia um justo sequer, para revelar a necessidade do Salvador mediando a nossa causa.

Tudo perfeito, tudo fazendo parte do plano eterno da Salvação. As sementes morrem para que a vida ressurja nas árvores e possam frutificar, plenas. Somos as sementes do que seremos na eternidade.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

A grande capa

Não foi intencional, mas certo dia a mulher do espelho enxergou-se vestida com uma grande capa que de certa forma a isolou de conviver com outras pessoas e suas ameaças. Vestida assim, deixava de se expor, deixava de ser julgada, deixava inclusive de ser mulher, tornava-se praticamente invisível no meio das multidões.

Tantos anos se passaram e finalmente ela despertou para uma realidade. Quem de fato se esconde lá dentro daquele grande volume? No âmago dessa criatura, o que de fato é uma grande crosta de coisas adquiridas e o que faz parte do ser. Dizia ela: "Quem sou eu e quem é o "si mesmo" de quem preciso me livrar?"

Desde a tenra idade não se encaixou. Sempre foi a estranha, a ruim, a feia, a agressiva, a grossa, a apagada, a tímida, a chata, a infantilizada demais. Sequer sabia que qualidades tinha, porque não lembrava de ter sido elogiada alguma vez. Era sempre a causa das brigas e a culpada dos desentendimentos. Foi treinada pra ter a autoestima adoecida, criada pra não ver valor em si mesma. Funcionou... cresceu sem entender o mundo e sem ser entendida por ele.




Nada naquela criatura estranha acontecia no tempo certo, dentro dos padrões ou aprovado pelas convenções sociais. Dava vasão à todos os seus impulsos e não tinha muito senso de responsabilidade. Parecia nunca se culpar de nada e se permitir de tudo, mas no fundo tinha o sonho de ser aceita em algum momento.

Não que ela não tentasse dar certo, sim tentava. Mas sabe-se lá porquê, ficaram pelo caminho uma infinidade de sonhos e carregados pela enxurrada das circunstâncias, lá se foram as suas esperanças de ter uma vida próxima do comum.

E hoje, diante do espelho, finalmente percebeu que essa grande capa, é um peso desnecessário para levar nos lombos. Chama a atenção mas não por aprovação, mas por estar completamente fora do que é aceitável. O peso do olhar de pena de alguns e o desprezo de outros... ela já não se lembra por que deixou-se vestir assim.

O si mesmo, é tudo aquilo o que fomos adquirindo durante a trajetória, mas que não faz parte do conjunto que forma o verdadeiro eu. É formado de amarguras, traumas, respostas de carência, marcas de violência, conceitos adquiridos, manipulação, herança dos outros. É preciso identificar o verdadeiro eu, debaixo dessa grande crosta, essa imensa capa que é o si mesmo. Arrancar tudo isso dói, mas é preciso para liberar o âmago, o ser, o verdadeiro valor de ser quem é.

Todo o mal que nos fazem, só pode atingir essa crosta, o si mesmo, jamais o eu que está protegido no âmago. E hoje diante do espelho, a mulher decide se despir de uma vez por todas. Esta criatura cheia de marcas vai finalmente se permitir ser quem é. Recomeçar não é nada fácil, mas tudo depende de uma decisão. 

Livrar-se-á da velha crosta repugnante e será uma alma coberta apenas de verdades.
Despir-se-á da capa adiposa e finalmente se permitirá novos olhares.
Chega de carregar tanto peso desnecessário!